janeiro 7th, 2018

O poder dos pequenos prazeres da vida
Chico Buarque tinha razão quando escreveu a música Roda Viva. Tem dias que realmente a gente se sente “como quem partiu ou morreu”. É a roda viva da vida que em tempos da ditatura brasileira toda e qualquer liberdade de expressão foi ceifada radicalmente.
Hoje, em plena era de liberdade de expressão, na maioria das vezes abusiva, cheia de achismos e sem sentido algum, me pego a perguntar que roda viva é essa em que “a gente estancou de repente (…) a gente quer ter voz ativa e em nosso destino mandar. Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá”?
Dentro desta cisma toda e após um exaustivo dia de trabalho me deparo com uma alegria infinita. O presente que recebi, via Correios, me deixou ali a pensar nas pequenas coisas que nos trazem alegrias e sequer percebemos.
Um livro que me tirou do cansaço e da peleja chegou numa caixa de papelão, que logo, percebi o carinho nela contido, expressado através dos desenhos e dizeres do lado externo desta preciosidade. Dentro da caixa o livro envolto na sacola de pano verde musgo, cuja estampa de mangas pintadas em “degradê” que vai do vermelho ao amarelo, quase me fez acreditar que tinha a fruta nas mãos. Galhos e folhas verdes claros compunham a deliciosa fantasia que fez parte da vida do autor. Assim, diante dos meus olhos, estava o livro Quase Memória do autor Carlos Heitor Cony.
Para mim foi muito mais que um livro. Foi o resgate do prazer da leitura, do despertar de emoções, do misturar dos personagens com seus afetos e sonhos e do aguçar do olfato. Confesso que quase senti o cheiro da manga madura desenhada no livro… que li muito rapidamente. Um romance instigante, envolvente, cheio de amor filial, cheio de cuidados, cheio de fantasias mecladas à realidade.
Creio que o leitor está a perguntar o que tem a ver o livro com a música do Chico. A metáfora contida na música como uma forma de protesto e repulsa a ditadura brasileira dos anos 70 e 80, hoje, representou a quebra dos grilhões da roda viva que fazem de nós uns meros robôs.

É fato que o cotidiano e o trabalho estão a rodar absurdamente e de tal maneira que, envolvidos, acabamos por perder os prazeres das pequenas coisas. Perdemos noção de tudo. Deixamos de dar importância aos pequenos afagos e do poder da palavra que acolhe.
Esquecemos até que o controle remoto desta roda viva chamada de vida está em nossas mãos e em nosso destino é possível mandar.
É a roda viva contemporânea gritando para resgatarmos as boas coisas de outrora.
E viva as pequenas coisas que nos fazem felizes.

VAnessa Arruda
Mestra em Administração, Pós Graduada em Marketing Político, Graduada em Jornalismo, Professora Universitária, Escritora, Poeta.
Outubro, 2017

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