maio 6th, 2015

Corrupção é a falência moral”

A entrevista dada por Michael Sandel, Filósofo e Professor da Universidade de Harvard, sobre ética e corrupção, nos faz recorrer à velha frase: “qualquer semelhança é mera coincidência.”
Para o Professor, quando existe corrupção nas esferas do governo e nas empresas, certamente está presente também no cotidiano das pessoas. Explica que quando não negociamos o valor da honestidade e do respeito mútuo, está explícito que estes são valores que fazem parte constitutiva do que somos. É uma questão de caráter . A ideia de que sempre se deve tirar vantagem do sistema precisa ser fortemente combatida.
Existem maneiras de se combater a corrupção, como a aplicação severa de leis, pela transformação cultural e um amplo debate sobre ética, justiça e bem comum. A corrupção, prossegue o autor, não é apenas caso de lei. É atitude diária.
Para isto é preciso que as escolas e as empresas tenham consciência do papel importante que exercem na vida das pessoas. Empresários e executivos devem estabelecer regras claras e códigos de conduta para seus funcionários. Esta atitude é vista como positiva, embora não suficiente. Sandel salienta que é preciso cuidar da cultura empresarial. É importante valorizar o caráter dos funcionários e não apenas os resultados. As empresas devem ser ponto de referência ética tanto internamente quanto com seus parceiros externos. O entrevistado complementa que o local de trabalho é um espaço fundamental para que as pessoas sejam incentivadas a fazer a coisa certa.
Cultivar as virtudes cívicas nas ruas, em casa, no serviço ou na escola é importante. Ele conceitua virtudes cívicas como ações e atitudes e hábitos que visem o bem comum. É preciso cidadãos dispostos a fazer a coisa certa sem serem forçados pelas autoridades, pela força policial ou pelas câmeras de vigilância. Daí a necessidade da transformação cultural.
Algumas pessoas justificam e denominam seus erros como ‘corrupção nobre.’ Ora, não existe nobreza quando um partido político se apodera do dinheiro público para financiamento de campanhas eleitorais; para mais tarde, no poder, contribuir (supostamente) com políticas a favor dos mais pobres. Talvez a ‘corrupção nobre’ até se justifique através do exemplo clássico que não envolve a política diretamente. É quando os pais roubam um pão para dar de comer aos filhos famintos; muito embora, a desonestidade seja algo ruim em qualquer circunstância. O Professor lembra que o conceito de ‘corrupção nobre’ traz um risco enorme. Se essa visão de mundo se torna endêmica, as normas de toda sociedade começam a sofrer um forte processo de erosão. Da obediência às leis à obrigação moral de sermos honestos, tudo passa a ser negociável. Neste caso, cada cidadão passa a ser o juiz do próprio caso e com poder para julgar quando a corrupção pode ou não ser justificada em nome desta suposta causa nobre.
Corrupção em larga escala, praticada pelos partidos políticos, pelo mundo dos negócios e com a conivência dos governos, é, sim, um sinal claro de falência moral.
Fonte: Revista Exame, ed 1086, abril 2015 (adaptado)

Matéria publicada no Jornal Vespasiano em Notícias, maio de 2015.

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